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Sorocaba, 17 de Maio de 2022

MATÉRIAS


Literatura entre o instante e a duração

Matéria publicada em 27/04/2010



Literatura entre o instante e a duração A literatura sempre transitou entre o instante e a duração do tempo. Fez do instante a sua principal referência, nos romances históricos de Walter Scott, Alexandre Dumas, Tolstoi, José de Alencar e Alexandre Herculano. Foi buscar na duração a explicação do tempo nas obras de Proust, Thomas Mann, Kafka, Samuel Beckett, Virginia Wolf, Borges e Cortázar.

Nos romances históricos, o tempo é apresentado como instantes demarcados, que acontecem numa extensão linear baseada em antes e depois, com causa e consequência. A História é revelada sob recortes, como pano de fundo às situações ficcionais, saltando de um momento ao outro, com o intuito de registrar o tempo como uma sequência de acontecimentos que avançam, construindo um amplo painel histórico.

Nos romances que se propõem a apresentar o tempo como duração, não há preocupação com fronteiras e demarcações. Muito menos com o princípio de causalidade: o que há são estados e temporalidades que se dão a conhecer, sob o fluxo do tempo.

O debate entre instante e duração, em busca da unidade mínima do tempo, vem de longe. Para o historiador Gaston Roupnel (1872-1946), o instante é uma realidade suspensa entre dois nadas. Para o filósofo Bergson (1859-1941), tempo é duração, sem possibilidade de demarcar precisamente o ponto em que ocorrem as mudanças. É o tempo-fluxo, em trânsito, exatamente como as águas do rio, nas quais nunca se pisa duas vezes, como diriam os filósofos pré-socráticos.

O romance contemporâneo vêm demonstrando que o tempo não é senão aquilo que se apronta nas relações temporais entre obra e leitor. Não há fronteiras de tempo pré-estabelecidas e fechadas, mas acordos entre concomitâncias.

A polifonia de vozes na narrativa de Memorial do convento, de José Saramago, subverte a noção convencional de narrador-único conduzindo a história. Consequentemente, alteram-se as noções de tempo.

Para se conhecer Manuelzão, personagem de Uma estória de amor, de Guimarães Rosa, é preciso transitar entre o presente (quando ele recebe as visitas para a inauguração da capela) e o passado no qual está mergulhado. Manuelzão habita um sem-tempo entre o real e o mítico, informado através da oralidade, das lembranças e tradições do sertão.

Em Rumo ao farol, de Virginia Wolf, os familiares se reencontram num presente que não existe sem o passado. O tempo não se separa em partes: é antes um continuum de duas faces que estão interligadas, uma buscando explicação através da outra.

No romance Montanha mágica, de Thomas Mann, o tempo é apresentado enquanto subjetividade e distorção. Hans Castorp sai de casa e toma o trem até um sanatório nos Alpes suíços. A viagem é relatada em detalhes, numa sequência linear: Castorp passa por diversos lugares, vê pessoas, presencia ocorrências, chega ao sanatório, instala-se, deita e dorme. No sonho, tudo o que acontecera na viagem se embaralha, estabelecendo relações impossíveis e absurdas, fora da consciência linear do tempo.

O conto O jardim dos caminhos que se bifurcam, de Jorge Luis Borges, também coloca em discussão a linearidade do tempo. O protagonista é Yu Tsun, numa missão de espionagem, tentando desvendar um labirinto e um livro, que constituem o mesmo objeto, proveniente dos antepassados. Ler esse conto é entrar num verdadeiro labirinto temporal.

Por muitos séculos, a literatura tratou o tempo como se fosse uma sequência de acontecimentos distribuídos entre presente, passado e futuro. De fato, esse é o conceito mais comum de tempo, baseado no que dizem os ponteiros do relógio.

Mas o relógio pode realmente ser entendido como o próprio tempo ou é uma representação dele, através de marcas indicando minutos e segundos? Não seria o relógio apenas um instrumento de medida usado para resolver a questão do tempo, uma vez que tempo não se dá a conhecer senão por si mesmo?

O assunto "tempo" sempre esteve na pauta das discussões de filósofos e cientistas. Se a ciência ainda não se pronunciou definitivamente a respeito, mesmo após as colocações de Einstein, a literatura tem dado mostras de que o tempo não é simplesmente o que se pode cronometrar. A poesia e a ficção frequentemente falam de um tempo que não se dá a conhecer senão através de si próprio, sem possibilidade de ser quantificado, demarcado e cronometrado de acordo com as convenções estabelecidas pela sociedade, pelos códigos culturais e pela tecnologia.

O tempo é algo que vai além das demarcações, como aquelas registradas na pintura, na fotografia e no cinema. Essas imagens planas mostram o tempo enquanto instante captado e registrado para sempre, embora esse tempo estagnado possa ser vivenciado como duração pelo observador.

Na literatura, sob o fluxo da palavra, o tempo não se restringe ao coágulo do instante. É um tempo livre, reversível ou irreversível, linear ou não-linear, que as palavras permitem cambiar e sugerir como processualidade temporal, muito além dos pêndulos e dos ponteiros do relógio.

Tempo como duração ou instante, eis a questão. A literatura tem praticado as duas possibilidades, enquanto não se define se é uma coisa ou outra. Ou as duas.


Fonte: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=44&id=288294


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