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Teatro Sorocabano

Cadastrada em 07/10/2009


Você gosta de teatro? Sonha em ser ator? Fica interpretando personagens em frente ao espelho? Lê muito sobre o assunto? Saiba um pouco mais sobre a arte dos palcos na excelente entrevista concedida pelo ator e produtor sorocabano Tiago Oliveira.

Como surgiu seu interesse pelo teatro?
Tiago Oliveira: Se iniciou como começa para muita gente: na escola, em pequenas montagens ou encenações extradisciplinares. Mas, pra valer mesmo, a coisa começou em 1994, na Oficina das Artes, antiga escola de teatro da diretora Nanaia de Simas. Vi um anúncio de testes de elenco para um espetáculo, fui no dia seguinte pra lá e desde então minha vida deu uma volta de 180°.
Lembrando agora, foram apenas 20 meses na escola, onde produzimos mais de 10 espetáculos, esquetes, festivais e muitas festas. Era um povo bem animado, tudo era motivo de festa. Lá conheci as pessoas que, de certa maneira, formaram o meu caráter: colegas de muitos trabalhos, profissionais respeitáveis e, sobretudo, os meus melhores amigos.
Depois desse período na Oficina, trabalhei com vários diretores da cidade, ainda quando tinha pretensões de ser ator. Mas a minha principal ?escola? em Sorocaba foram os sete anos na companhia de Carlos Roberto Mantovani. Foi lá que pudemos desenvolver nossas habilidades e um pensamento verticalizado sobre o fazer teatral. Realizamos várias montagens na presença de um diretor muito apaixonado pelo teatro e consciente do seu papel na sociedade e a participação em festivais desenvolveu nosso foco no debate, na discussão técnica e na seriedade do nosso trabalho.
Em 99 fui para São Paulo, onde estudei cenografia com JC Serroni. Voltei para cá assim que terminei o curso e em 2001 ingressei em Ciências Sociais na USP. Dois anos depois migrei para a ECA, onde cursei Artes Cênicas.

Você também produz espetáculos. Como é fazer isso? Quando você acredita em um trabalho?
Tiago Oliveira: A produção surgiu na minha carreira como uma necessidade. Nesse tempo todo em Sorocaba, o que aprendi é que precisamos ser versáteis em nossos papeis para que as coisas aconteçam, que não é possível ficar parado esperando que as coisas caiam do céu. Mesmo em São Paulo, onde existe um respeito maior pelo artista, dificilmente alguém sobrevive se quer ser ?apenas? ator. A busca de espaços, de dinheiro e de oportunidades exige uma dose grande de empreendedorismo.
Por um bom tempo, ainda antes do Grupo Manto ser fundado, vários trabalhos que conseguimos viabilizar só foram possíveis por essa ?cara de pau? de chegar nas empresas, apresentar o grupo e ouvir vários nãos. Isso desenvolve nossa capacidade de vender o teatro ? um agente de transformação travestido de entretenimento.
Mas foi no Grupo Manto em que, realmente, pudemos colocar em prática nosso pensamento. Escrever projetos para a Linc e solicitar verbas de 30, 50, 70 mil é muito sério; não só pelo fato de ser uma verba pública mas principalmente pelo voto de confiança que nos é dado na aprovação. Mesmo assim, é muito prazeroso realizar projetos que nasceram de um ideal comum: Em 2003, acreditávamos que o correto para um grupo que se iniciava era voltar o olhar para o clássico de Shakespeare e montamos Romeu & Julieta.
No ano seguinte, como em todos os nossos brainstorms de propostas, pretendíamos novamente o bardo, mas nos apaixonamos pela história do circo-teatro no Brasil. Tratada pelos registros oficiais como uma arte menor e, por isso, relegada à marginalidade, descobrimos um celeiro de artistas circenses em Sorocaba e levamos essa história à cena em um espetáculo muitíssimo bem sucedido. Tínhamos 200 lugares em nossa arquibancada e todos os dias mais de 300 pessoas queriam entrar. Excursões vinham de vários bairros e cidades e muitas pessoas foram apresentadas ao teatro por nossas mãos.
Logo em seguida, passamos por um período bastante conturbado, porém fértil de ideias e produções, ao armar nossa lona no Mosteiro de São Bento, em 2005. Ali, sim, nossa capacidade de produção foi colocada à prova ao enfrentarmos a falta de grana e de apoios. Mesmo assim, conseguimos manter o espaço durante 2 anos, sempre com grande fluxo de público.
Já no ano passado montamos Christo Rei, novamente com apoio da Linc. Procuramos, na concepção do espetáculo, nos debruçarmos sobre a fé do povo sorocabano e em como este texto circense poderia dialogar com um público moderno. Buscamos uma forma de apresentar Jesus Cristo como uma figura histórica, um homem com ideais simples e revolucionários, sem santidade. Nos preocupamos muito em que nossa plateia se identificasse com essa linguagem e encontramos nas músicas de Roberto Carlos um catalizador muito eficiente da mensagem. O que vimos foi um público sempre entusiasmado e de olhos brilhantes. Nossa proposta, vista com desconfiança e desdém pela imprensa e por determinados artistas, encontrou na platéia defensores fervorosos.
Mas pensando na sua pergunta, acho que o ?acreditar? no projeto passa pela nossa certeza de que o teatro transforma as pessoas e pela nossa sensação de dever cumprido ao ver o público enxergar verdade nas histórias que estão em cena. Sem esta profunda crença no papel do teatro não se faz teatro.

Como anda o teatro sorocabano atualmente. As pessoas estão se renovando, existem espaços para a produção?
Tiago Oliveira: Existem novos grupos surgindo, novas propostas e muita gente boa no mercado. Ao mesmo tempo, desde que comecei a fazer teatro, nunca vi tanto desapego com o que é levado à cena e tanto desrespeito com o público. Não gostaria de atribuir esse panorama a um único fator, mas para ser sucinto e não iniciar uma discussão muito mais ampla, acredito que isso se deve a um distanciamento cada vez maior entre artistas e público. Pessoas de teatro produzem cada vez mais para pessoas de teatro e se esquecem que de nada vale uma pesquisa de linguagem ou técnica que não reverbera no seu público.
Levam-se ao teatro espetáculos para serem debatidos e não assistidos. Conceitos básicos de teoria da comunicação são ignorados em função de uma estética ou de um projeto teórico. Artistas se preocupam em ditar regras do que é ou não contemporâneo no teatro e deixam de ver que cada vez mais as pessoas se afastam dos espaços cênicos, principalmente porque o teatro que se faz hoje olha para o próprio umbigo, num monólogo ridículo.
Mesmo assim, este teatro deve ter o seu espaço. Assim como qualquer tipo de encenação, seja ela feita por profissionais ou por alunos de uma oficina de poucas horas. E os espaços estão cada vez mais fechados na cidade. Quando houver uma ocasião oportuna, gostaria de poder ampliar este debate, importante para o futuro do teatro em Sorocaba.

Quais "conselhos" você daria para as pessoas que estão começando a estudar?
Tiago Oliveira: O conselho que posso dar é que as pessoas que sonham em se desenvolver nessa área procurem, antes de qualquer coisa, estudar assuntos que não são relacionados ao teatro. Procurem observar mais o mundo à sua volta, conhecer os seus pares, os demais artistas da cidade e do mundo e as histórias que só as experiências na rua poderão oferecer.
O fato de eu ter feito Ciências Sociais e de ter buscado, quando estava na Universidade, assistir a várias outras disciplinas, em institutos ou cursos muito diferentes do meu, fez uma diferença grande na minha formação. Costumamos dizer que a USP é uma mãe e vejo que o tempo que fiquei sob suas asas, aproveitando as oportunidades que ela me deu, foi extraordinário.
Fiz desde uma matéria sobre interdisciplinaridade na arte, no MAC, a antropologia cultural e língua e história gregas. Trabalhei como webmaster da agência de notícias da Universidade e como pesquisador de telenovelas. Acredito que para o teatro, hoje, talvez seja mais importante uma formação em ciências humanas ou comunicação que exclusivamente em Artes Cênicas. Já vi até engenheiro ser mais eficiente que um ator, pois antes de ser um artista, você tem que se formar como ser humano. E isto a sala de ensaios não vai poder oferecer.

Quais são seus próximos projetos?

Tiago Oliveira: Atualmente, estou muito envolvido com redação publicitária. Trabalho em uma agência, com grandes clientes, realizando campanhas de impacto nacional e tem me sobrado muito pouco tempo para me dedicar ao teatro. Apesar disso, meu trabalho depende da minha capacidade criativa e não me sinto ausente, pois sempre estamos envolvidos com cenas, ensaios, produções e até mesmo com teatro empresarial. Dialogamos o tempo todo com o público e consigo ver, pasme!, poder de transformação até mesmo na publicidade.

Fale com Tiago Oliveira!
http://www.twitter.com/tiagooliveira

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Cena de Christo Rei

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