


Cadastrada em 19/05/2010
Monumentos, pontos turísticos, um museu específico sobre o tema, talvez até um parque temático poderiam aumentar a presença do tropeiro em Sorocaba, e sem dúvida haveria muito a ganhar com a valorização da história local.
É preciso analisar com cuidado o possível desinteresse da população pelo estudo de suas origens tropeiras, insinuado pela ausência completa de público na palestra do pesquisador Álvaro Augusto Antunes de Assis, marcada para a manhã de sexta-feira (14) no parque do Campolim.
O interesse do público é ingrediente indispensável para a realização de qualquer evento, mas não é o único. Também é preciso levar em conta aspectos como divulgação, escolha de lugar, dia e hora adequados, regularidade do evento, vantagens agregadas (conforto, atrativos paralelos) e a ocorrência de outras realizações no mesmo horário, entre outros fatores que costumam resultar em públicos maiores ou menores.
De toda maneira, mesmo considerando-se hipoteticamente que a falta de público se deva à indiferença, isso não deve ser encarado como um problema, e sim como possível indicador de que talvez se deva repensar as ações de divulgação da cultura tropeira, a começar por uma definição muito clara do que se pretende atingir com ela.
Se o objetivo é que o povo conheça e se aproprie de suas raízes históricas, em graus variáveis de aprofundamento, a estratégia é uma; se o que se pretende é transformar o tropeirismo num símbolo comercial, por assim dizer, largamente aceito e celebrado a ponto de tornar-se uma referência cultural da cidade, a estratégia é outra.
Os brasileiros não são como os norte-americanos, que transformam tudo em espetáculo (basta ver a celebração da história dos colonos e vaqueiros do velho Oeste, eternizada em milhares de filmes), nem como os europeus, que fazem de sua cultura e tradição atrações turísticas. Talvez, se o objetivo for mesmo transformar o tropeirismo em símbolo desta comunidade, deva-se aprender com esses povos, agregando-se ao trabalho didático realizado por professores, pesquisadores e entusiastas os préstimos de publicitários e especialistas em marketing, eventos e turismo.
Ambas as opções são válidas, mas é preciso entender que não se pode adotar uma e esperar pelos resultados que só a outra pode trazer.
A opção didática tem suas limitações, que não podem ser ignoradas. Num país em que o interesse pelos fatos históricos e até mesmo pela atualidade política e econômica é restrito, não é de se estranhar que a identidade tropeira acabe sendo reconhecida por um número não muito grande de pessoas, mas isso não significa, necessariamente, o fracasso das tentativas oficiais de chamar a atenção para a importância desse ciclo econômico.
Desde a década de 1960, estudiosos locais, inspirados na figura incansável do historiador Aluísio de Almeida, fazem um esforço sincero para divulgar a história, a cultura e as tradições tropeiras. Anualmente, esse trabalho ganha contornos de festa popular com os shows, exposições e a tradicional cavalgada que compõem a programação da Semana do Tropeiro.
Monumentos, pontos turísticos, um museu específico sobre o tema, talvez até um parque temático poderiam aumentar a presença do tropeiro em Sorocaba, e sem dúvida haveria muito a ganhar - cultural e até economicamente - com a valorização da história local. Mas deve-se evitar ao máximo a descaracterização dessa cultura, que seria antes uma forma de matá-la do que de promovê-la. Tentativas de transformar a Semana do Tropeiro em evento de massa, com a realização de shows que pouco têm a ver com a tradição tropeira e caipira desta parte do Estado, foram rechaçadas em anos recentes, e com total propriedade, pois concluiu-se que é melhor ter eventos menores, porém fiéis à essência daquilo a que se referem, do que qualquer coisa gigantesca e sem propósito.
Se for para fazer do tropeiro apenas uma marca como tantas outras, desfigurada e sem vínculo com a fascinante história que esse personagem representa, é melhor que tudo fique como está - e que o público, embora reduzido em algumas ocasiões, ao menos seja bem informado.
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