


Por Desirée Cassado
Adicionada em 29/05/2008 - Visualizações 402

Desirée Cassado é Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); especialista em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda do programa de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP. Atua com pesquisa acadêmica e atendimento clínico de adultos, crianças, casais e idosos dentro da abordagem congnitivo-comportamental.
Todos nós sentimos tristeza de vez em quando. Desesperança e pessimismo são sentimentos normais que fazem parte da complexidade da nossa existência.
Os primeiros relatos de depressão datam de muitos anos antes de Cristo. Desde a antiguidade, a depressão aflige a humanidade. Hipócrates já usava em sua época termos como melancolia e mania para descrever distúrbios mentais. Na Idade Média, influenciada pela repressão religiosa da época, era vista como possessão demoníaca. Já no Renascimento, era sinônimo de intelectualidade.
Hoje, a depressão afeta 340 milhões de pessoas em todo o mundo. O número de pessoas sofrendo de depressão dobrou nos últimos 50 anos e a previsão é de que, em algum momento da vida, 1 a cada 5 de nós venha a tê-la. Atualmente 10% da população mundial sofre do mal e, em dez anos, acredita-se que esse número será de 20%. Recentemente a Organização Mundial da Saúde classificou a depressão como uma das doenças que mais causam incapacidade. É a 4ª numa lista de 5. Até 2020 terá ocupado o 2º posto. Impressionante, não?
Ficar deprimido é muito diferente do que sentir-se triste. A depressão é um conjunto de comportamentos que envolvem o afastamento do convívio social, perda de interesse no trabalho ou escola, perda do prazer nas relações afetivas, sentimentos de culpa e de auto-depreciação, baixa auto-estima, desesperança, apetite e sono alterados, sensação de falta de energia e dificuldade de concentração. O indivíduo, em geral, tem uma visão distorcida de si mesmo, do mundo a sua volta e do futuro. Percebe-se como inadequado, fracassado num mundo cheio de obstáculos insuperáveis, antecipando que seu sofrimento o acompanhará pelo resto de sua vida.
Tais sintomas podem vir acompanhados de dores no corpo, dores de cabeça, Fibromialgia, alteração do ritmo intestinal, da digestão, alteração da pele, cabelos, unhas, entre outros: a depressão afeta de tal maneira o organismo que indivíduos deprimidos possuem baixa a resistência a infecções e boas chances de desenvolver problemas cardíacos, hipertensão e diabetes.
Não existe uma causa única para a depressão, entretanto algumas condições médicas podem estar associadas à doença como o hipotiroidismo, câncer, diabetes, doença cardíaca, dores crônicas, derrame cerebral, entre outras. Até mesmo medicamentos de uso contínuo podem provocar quadros depressivos. Entre eles estão as anfetaminas (incluídas em diversas fórmulas para controlar o apetite), os benzodiazepínicos (calmantes), os anti-hipertensivos, as drogas para tratamento de gastrites e úlceras (cimetidina e ranitidina), os contraceptivos orais, cocaína, álcool, antiinflamatórios e derivados da cortisona.
Certamente, além da predisposição genética, os aspectos psicológicos são extremamente relevantes para o desenvolvimento e manutenção da doença. Algumas pessoas conseguem identificar incidentes que desencadearam sua depressão como a perda de uma pessoa querida, do emprego ou o fim de uma relação amorosa. Uma historia de vida pobre em relações afetivas somada à dificuldades em traçar e atingir objetivos e resolver conflitos, também facilita o desenvolvimento da doença.
As relações afetivas são terrivelmente afetadas durante o adoecimento. Um dos desafio da família (e aqui inclui-se amigos, parentes e responsáveis) é entender que a depressão, ao contrário da tristeza, impossibilita o indivíduo de reagir a estímulos de prazer. A depressão lhe rouba as forças, a esperança e a vontade de agir. Portanto, cabe aos familiares encaminhar o deprimido ao auxílio psicológico e psiquiátrico, e cuidar para que ele não desrespeite suas necessidades de higiene, alimentação e descanso. A família deve estimulá-lo, mas sempre respeitando os limites que a doença impõe. Comentários como você está com frescura, isso é doença de rico, você precisa ter mais força de vontade, provavelmente resultantes da frustração diante da apatia da pessoa deprimida, reforçam os sentimentos de baixa auto-estima e auto-depreciação típicos da doença. Finalmente, diante da ameaça de suicídio, a família deve intervir e procurar ajuda imediatamente. Ameaças e tentativas de suicídio são indícios de que a pessoa pode estar gravemente deprimida e necessita de tratamento imediato!
Sem tratamento adequado a depressão pode demorar meses e até mesmo anos para desaparecer. O diagnóstico normalmente é feito por um médico psiquiatra e um psicólogo. O acompanhamento médico é essencial e, em alguns casos a junção do tratamento farmacológico com a psicoterapia é a alternativa que alcança resultados mais rápidos e consistentes.
Uma das psicoterapias indicadas para o tratamento da depressão é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A TCC é um processo consciente de aprendizagem e auto-conhecimento onde o paciente deprimido aprende a observar-se e a fazer relações entre os comportamentos e suas conseqüências, dentro de contextos específicos, com o objetivo de identificar aqueles comportamentos e pensamentos que geram conseqüências desagradáveis. O indivíduo é incentivado a se engajar em pequenas atividades planejadas que possam lhe proporcionar bem estar e a enfrentar suas dificuldades de uma forma diferente. Durante o processo terapêutico, o paciente com depressão tem a oportunidade de redefinir seus valores e crenças, elaborando novas formas de pensar sobre si mesmo e de interagir com o mundo a sua volta.
Dentro da proposta da TCC, a família tem um papel fundamental no tratamento psicoterápico. Durante a terapia ela é instruída sobre a doença: quanto mais informações a família tiver, mais bem preparada ela estará para oferecer apoio e maiores são as chances do indivíduo aderir ao tratamento. Os familiares aprendem a interagir e a se comunicar de forma mais clara e menos agressiva com o paciente e entre si. São incentivados a observar-se na tentativa de compreender o papel que cada um exerce na manutenção da depressão e elaboram novas formas de lidar com o problema.
Apesar de a depressão ter um impacto significativo nas relações afetivas e familiares e implicar em prejuízos consideráveis em todas as áreas da vida do indivíduo, estima-se que apenas 25% das pessoas com sintomas procuram ajuda. Infelizmente, quando não tratado, os episódios depressivos tendem a repetir-se cada vez com mais freqüência e gravidade. Somente o tratamento rápido, intensivo e completo (até o desaparecimento total dos sintomas) pode diminuir o risco de recaídas e de depressões mais graves no futuro.
Depressão tem cura! E como qualquer doença, deve ser tratada. Atualmente medicina e a psicologia dispõem de tecnologia que permitem que o tratamento da depressão seja rápido, eficaz e relativamente simples.
O texto publicado nesta coluna é de responsabilidade do autor, e pode nao expressar a opiniao total ou parcial da Sorocaba On-Line S/C Ltda sobre o assunto. Boa leitura!
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