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Sorocaba, 16 de Julho de 2019

ARTIGOS


Investindo sem vestir

Por: Neto Canineu



Como um mestrando na área de administrar organizações esportivas é um tapa na minha cara cada vez que um grupo internacional de investimentos chega ao Brasil com o propósito de "investir" em um clube de futebol. Na verdade o fato desses grupos se disponibilizarem a injetar dinheiro nos caixas dessas instituições é em si uma situação louvável e bem vinda. O que eu questiono, porém é a maneira como esse dinheiro é investido. Não existe nenhuma transparência nas transações entre as partes, que são costuradas de tal forma que os investidores são os grandes beneficiados, deixando os clubes no final dos contratos (isso quando eles não são terminados unilateralmente antes do prazo pré-estabelecido) na mesma situação em que se encontravam quando da assinatura do contrato, situação essa geralmente precária no aspecto financeiro e estrutural.

A mais nova versão desse movimento que já se tornou lugar comum nas grandes agremiações brasileiras é o grupo Media Sports Investments, ou simplesmente MSI, que a pouco mais de um mês adquiriu os direitos de administrar o departamento de futebol do Sport Club Corinthians Paulista e a explorar a marca Corinthians pelos próximos dez anos. Aliás o Corinthians já passou pela mesma experiência alguns anos atrás com o grupo de investimentos norte-americano HTMF. Outros clubes também tiveram essa mesma experiência nos últimos anos. Entre eles estão o Palmeiras e a Parmalat, multinacional italiana de produtos alimentícios, e o Flamengo e uma empresa de marketing esportivo de origem suíça, que acabou falindo já no primeiro ano de contrato com o clube carioca.

As primeiras ações da parceria corintiana reflete bem as legítimas intenções do grupo investidor e o descaso para a instituição Corinthians. A parceria entre a MSI e o Corinthians vai começar com um investimento que foge totalmente da realidade do faturamento do clube e do futebol brasileiro, a contratação do astro da seleção argentina e do Boca Juniors Carlos Tevez. Entre o pagamento para o Boca Juniors e os salários do jogador, o gasto com Tevez será de US$ 29,5 milhões. Só com o clube argentino a MSI vai gastar US$ 19,5 milhões, o que transforma o jogador na mais cara aquisição de um clube brasileiro. Pelo câmbio atual, o investimento total equivale a R$ 80,2 milhões. No ano passado, segundo dados do balanço oficial do clube, o Corinthians teve receita de R$ 44,4 milhões com seu futebol profissional. Assim, a MSI vai gastar com um só jogador praticamente o que vai arrecadar nos próximos dois anos, já que a partir de agora todas as receitas corintianas vão para a empresa e os valores pouco devem mudar no curto prazo. Outros números mostram o descompasso do investimento em Tevez e a realidade do país. O campeonato brasileiro de futebol de 2004, iniciado em abril e que teve 552 partidas, arrecadou em média com a venda de ingressos R$ 50,5 milhões, ou só 63% de todo dinheiro que será gasto com Tevez. O argentino ganhará US$ 2 milhões por ano no clube. Atualmente, o teto salarial no Parque São Jorge é de R$ 100 mil mensais.

Resumidamente o que vemos nessa relação comercial entre as duas partes é o seguinte: os estrangeiros investem mas não vestem. Em outras palavras esses grupos estão investindo nos clubes, mas como não há qualquer identificação ou comprometimento com o crescimento e estruturação dos mesmos, eles não vestem as camisas dessas agremiações. Os clubes servem somente como uma mina de ouro. Eles chegam, extraem e depois se vão com os cofres cheios, enquanto os clubes permanecem na mesma, quando não pioram uma situação que já era ruím. Não há uma agregação real de valores ao patrimônio do clube. Estádios são prometidos mas não construídos. A estrutura física já existente não é sequer tocada. Os investimentos são feitos exclusivamente no futebol, não havendo menção de qualquer benefício a outros esportes. E mesmo assim esses investimentos se limitam à contratação de jogadores que mais tarde vão ser vendidos pelo próprio investidor, para o seu proprio lucro, com uma repassagem mínima para o clube, quando ela acontece. Não existe (ou pelo menos eu não vejo) a preocupação de dirigentes em garantir a melhoria de questões básicas como as condições de trabalho das categorias de base do clube. E mesmo que o assunto seja exclusivamente o desempenho da equipe de futebol profissional do clube, investimentos como o mencionado acima não são garantia de sucesso. Qualquer contratação de jogador é um risco em caso de contusão ou falta de adaptação ao novo país, o que desvaloriza o atleta. Além disso a discrepância entre o salário do jogador e o dos outros jogadores do elenco desestabiliza ainda mais o ambiente de trabalho de um clube que está longe de ser harmonioso.

Mas mesmo diante de todos esses fatos certamente algum otimista observaria: Você está se esquecendo dos títulos que todo esse investimento proporciona aos clubes!!! A resposta é simples e imediata: Os títulos, quando eles vem, são uma efêmera ilusão que a longo prazo é esquecida, ao passo que as dívidas, frutos de um contrato mal firmado, são duradouras e inexoráveis. Uma pessoa administrando os interesses do clube tem por obrigação assegurar que este vai ganhar muito mais que títulos ao tecer um contrato dessa natureza. Enquanto as coisas continuarem vergonhosamente sendo conduzidas dessa forma não existe qualquer perspectiva de uma melhora na estrutura do futebol brasileiro em geral. Infelizmente?

Até a próxima!

O texto publicado neste artigo é de responsabilidade do autor, e pode nao expressar a opiniao total ou parcial do Portal Sorocaba On-Line S/C Ltda sobre o assunto. Boa leitura!

Neto Canineu

é ex-jogador de futebol profissional com passagens por Corinthians, Fluminense e São Bento. Também é técnico de futebol universitário nos EUA, estando a frente dos programas de futebol da University of the Cumberlands, no estado do Kentucky. Formado em Administração de Empresas, Gerenciamento Esportivo e Educação Física nos EUA (Union College - Kentucky), Neto também faz parte do Programa de Desenvolvimento Olímpico norte-americano e ministra clínicas de futebol por todo o país. Atualmente cursando o MBA, Neto pretende se formar nos próximos dois anos.

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