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Sorocaba, 22 de Julho de 2019

ARTIGOS


Guia do universitário brasileiro nos EUA

Por: Neto Canineu



Todo fim de ano é a mesma coisa. Antes mesmo de chegar ao Brasil para passar as festas de fim de ano ao lado dos meus familiares, o telefone começa a tocar e a caixa de emails começa a se encher, resultado do cada vez mais intenso interesse de jovens em vir estudar e jogar nos Estados Unidos. Mesmo depois de sete anos vivendo por aqui, nos quais de uma forma direta ou indireta intermediei a vinda de mais de 20 estudantes para cá, ainda paro para refletir sobre as causas de tal procura. Certamente uma delas é o fato dos Estados Unidos ainda representarem o oásis do mundo no que diz respeito a educação, tecnologia, oportunidades de emprego e por aí vai. Apesar de todos os problemas relacionados com a segurança nacional e o terrorismo esse país ainda seduz nós brasileiros como nenhum outro. Penso que nesse caso específico outro fator de motivação é a possibilidade de praticar esporte competitivo no ambiente universitário, o que nenhum outro país no mundo oferece de uma maneira tão extensiva. E no final de quatro anos se formar com um diploma americano com uma perspectiva de sucesso e horizonte profissional imensos. Porém na medida em que vejo aumentar esse interesse, proporcionalmente também aumenta a falta de informação sobre como as coisas realmente são por aqui. As pessoas tendem a criar uma imagem celestial sobre o que seria a vida por aqui, o que na maioria das vezes difere, e muito, da realidade. Por esse motivo pensei em escrever um artigo sobre a realidade de um estudante brasileiro freqüentando uma universidade nos Estados Unidos. Começando pelos requerimentos básicos para iniciar essa jornada no que diz respeito à língua, documentos, qualificações, custo, etc. Passando pelo dia-a-dia de um estudante: cursos, especializações, moradia, alimentação, esporte, etc. E terminando com as perspectivas reais de um estudante depois da formatura. Ou seja, segue abaixo o antes, durante e depois de um estudante universitário brasileiro nos EUA.

Em primeiro lugar é necessário ressaltar um "detalhe" que às vezes passa desapercebido pelas pessoas que desejam estudar e praticar esporte nos EUA: é preciso falar inglês. Pode parecer estúpido esse comentário mas a realidade é que me deparo com pessoas que parecem esquecer desse pequeno "detalhe". Muitas universidades hoje em dia oferecem cursos intensivos de inglês conhecidos pela sigla ESL (English as Second Language) e nesse caso possibilitam a alunos o ingresso imediato na escola com um nível de inglês apenas básico. Mas o fato é que isso é exceção e não regra. Normalmente qualquer estrangeiro que deseje estudar em uma universidade americana deve passar por um exame chamado TOFLE, que testa a proeficiência do indivíduo na língua inglesa. Esse exame é oferecido nos grandes centros brasileiros como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, geralmente em escolas americanas instaladas nessas cidades.

Não existe vestibular nos EUA. Todas as universidades usam o mesmo padrão para analisar o conhecimento e desempenho acadêmico dos estudantes e assim selecioná-los. Isso é feito através de dois testes: o SAT e o ACT. Os dois testes praticamente cobrem os mesmos tópicos: Inglês, Matemática, Ciências e Conhecimentos Gerais, e por essa razão o estudante não precisa passar pelos dois exames, podendo optar por um deles apenas. Toda universidade exige uma nota mínima em um dos dois testes, nota essa que difere de universidade para universidade. Além disso, todas instituições oferecem algum tipo de bolsa acadêmica para alunos que obtém resultados expressivos nesses exames (essas bolsas podem chegar a cobrir o custo total dos estudos). Normalmente as universidades também levam em consideração o desempenho acadêmico dos alunos no colegial tanto para fins de admissão em seu quadro de alunos quanto para oferecimento de bolsas acadêmicas. Assim como o TOFLE, o SAT e o ACT são oferecidos na maioria das escolas americanas do Brasil.

Uma vez em posse das notas requeridas nesses exames, o estudante entra na fase burocrática do processo de admissão. As universidades no mínimo exigem uma tradução juramentada do histórico escolar do estudante, assim como uma cópia da maioria dos documentos do mesmo. Além disso, uma declaração (e prova) de responsabilidade financeira é exigida, que nada mais é do que um atestado de que os responsáveis pelo estudante podem arcar com as despesas escolares do mesmo. O próximo passo é o visto para entrada nos EUA. Com a conclusão do processo de admissão, a universidade se encarrega de enviar para o estudante internacional um documento chamado I-20. Esse documento entitula o estudante estrangeiro a requerer um visto de estudante. É importante frisar nesse caso que o I-20 não garante a emissão do visto de estudante. Em setes anos presenciei em muitas ocasiões um indivíduo ter seu visto negado mesmo em posse do I-20 e de todos os documentos pertinentes. O fato é que após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 a entrada nos EUA ficou muito mais difícil, até para estudantes.

Além de trabalhoso esse processo também é caro. Só para se ter uma idéia a inscrição para cada um dos três exames mencionados acima (TOFLE, SAT e ACT) custa em média 150 dólares, todo o processo de emissão do visto de estudante custa em média 200 dólares, além das despesas com a tradução juramentada dos documentos. Infelizmente essas despesas são irrisórias se comparadas com a despesa com a passagem aérea e principalmente com os custos da universidade em si. Uma passagem aérea para os EUA gira em torno de 1,000 dólares (incluída uma conexão, ou seja, se o destino for um grande centro como Miami, New York, ou Chicago, por exemplo, o custo cai um pouco). Evidentemente universidades diferentes tem preços diferentes, mas em média o custo de uma universidade para um estudante internacional fica entre 1,500 e 2,000 dólares por mês. A notícia boa é que esse montante cobre todas as despesas com escola, alimentação, moradia e livros (na grande maioria das instituições os estudantes moram nos dormitórios das universidades e comem em seus refeitórios).

A essa altura do artigo a pergunta é inevitável: quem pode arcar com esse tipo de despesa??? Pra dizer a verdade penso que talvez conheça uma ou duas pessoas nessa categoria. Então o que explica o crescente número de brasileiros indo estudar em universidades americanas??? Como mencionei anteriormente esses brasileiros vem para os Estados Unidos não somente para estudar. Eles também vêm para praticar esporte, e é justamente essa prática que serve como moeda forte para o pagamento de tais despesas. Esses estudantes recebem bolsas de estudo para representarem as universidades dentro de campo, quadra, piscina ou pista. Essas bolsas variam muito de escola para escola e podem chegar a 100%, o sonhado "full scholarship". Evidentemente as bolsas são baseadas no desempenho, nesse caso, esportivo do estudante. Dessa maneira fica claro que o requerimento básico para um atleta que almeje uma bolsa de estudos numa universidade americana é a excelência na prática do esporte, seja ele futebol, basquete, vôlei, tênis, natação ou atletismo.

Assim o protótipo do estudante brasileiro nos Estados Unidos é um indivíduo que obtém uma substancial bolsa de estudos esportiva (geralmente entre 50 e 80%). Um erro comum desse estudante brasileiro, porém é assumir que empregadores farão fila na porta do seu dormitório. É natural e sadia a intenção de levantar algum dinheiro através de trabalhos pequenos para cobrir o resto dos custos da universidade (ou parte deles), mas a verdade é que apesar deles existirem não há nenhuma garantia de que eles estarão a disposição imediatamente. Além disso, é importante entender de que por lei o estudante internacional é somente autorizado a trabalhar dentro do campus da sua respectiva universidade. E se for pego trabalhando fora do campus a pena é a deportação automática. A única exceção a essa regra é a do trabalho vinculado ao esporte praticado (clínicas de futebol, por exemplo), mesmo assim somente autorizado durante o verão americano (Maio à Julho) período em que os estudantes estão em férias escolares.

A vida universitária nos Estados Unidos é muito tranqüila se comparada ao Brasil, principalmente com relação a carga horária e a liberdade para tomar decisões. Aqui os estudantes não são obrigados a declarar o "major", o que seria para nós o tópico de estudo, até o terceiro ano da faculdade. Isso porque todas as universidades exigem que o estudante, independente do seu campo de estudo, curse determinadas matérias nos primeiros anos ("core curriculum") como Inglês/Literatura, História, Matemática, Física/Química/Biologia, Espanhol/Francês e Música. As matérias específicas pertinentes a cada curso são ensinadas a partir do terceiro ano. Outro atrativo é o fato do estudante poder escolher as matérias que vai cursar a cada semestre. Obviamente essa liberdade não é irrestrita. É estipulado um limite mínimo de matérias a serem cursadas. Além disso, em todo decorrer do processo o estudante é auxiliado por um conselheiro, que é nomeado no começo de sua carreira universitária e que o acompanha até a sua formatura. No entanto a principal vantagem de se estudar em uma universidade americana talvez seja o fato de um indivíduo poder freqüentar mais de um curso ao mesmo tempo. Pelo fato de todos os cursos exigirem um mesmo currículo básico de matérias, um estudante que deseje cursar Administração de Empresas e Teatro, por exemplo, não necessita freqüentar aquelas matérias duas vezes. Isso torna então possível alguém se formar em mais de um curso num período de quatro ou cinco anos.

O que muitos estudantes e pais muitas vezes esquecem é que vir para os Estados Unidos é vir para uma outra cultura, que se em muitos aspectos se assemelha a nossa, em muitos outros é completamente diferente. No caso de um estudante internacional essas diferenças podem causar tamanho desconforto a ponto de tornar a estadia longe de sua terra natal simplesmente insuportável. No nosso caso específico, a falta de calor humano e intimidade nas relações sociais demonstrada pelos americanos pode se tornar causa de profundo desequilíbrio emocional. Outro exemplo prático disso está nos hábitos alimentares. Além das refeições serem em larga escala mais calóricas do que as nossas, o que em 90% dos casos faz com que o estudante brasileiro ganhe peso nos primeiros meses, os horários também são bastante diferentes. De uma maneira geral dentro das universidades americanas o almoço é servido em torno das 11 da manhã e o jantar à 5:30 da tarde. Ou seja, às nove horas da noite o estudante está morrendo de fome. Outro choque cultural é dividir o quarto com uma pessoa que você não conhece. Nas universidades americanas a regra é ter um companheiro de quarto, o famoso "roommate". Evidentemente o estudante pode optar por morar sozinho, mas nesse caso tem que arcar com uma salgada taxa extra. Se essa experiência muitas vezes rende amizades para vida, ela pode também ser fonte de inúmeros problemas.

As pessoas se enganam ao pensar que estudantes universitários não recebem dinheiro para representar suas universidades. É uma ingenuidade pensar dessa forma. Cada dólar recebido em forma de bolsa de estudo é tão verde quanto aquele que estampa a face do general George Washigton, o primeiro presidente americano. Em outras palavras o vínculo entre uma instituição escolar que oferece a um estudante a oportunidade de representar suas cores em uma arena esportiva e o próprio estudante é um vínculo profissional. Ou seja, aquele estudante pode e deve ser cobrado pela sua conduta e performance dentro da sua área de atuação esportiva. Dessa forma em caso de desempenho abaixo do esperado a escola não é obrigada a renovar o contrato com o estudante, que, diga-se de passagem, é por regra de um ano de duração. Essa cobrança por parte da instituição é acentuada proporcionalmente ao valor da bolsa oferecida ao aluno. Assim estudantes internacionais, dada a natureza dos seus compromissos com as universidades, são constantemente alvos de tal cobrança. Obviamente isso é fonte de intensa pressão e stress, mas a convivência com essa realidade deve ser entendida e assimilada no momento em que se decide estudar e praticar esporte competitivo nos Estados Unidos.

Finalmente é minha obrigação ao desenvolver esse tema citar a palavra saudade. A habilidade de um estudante em lidar com a saudade é o diferencial entre aqueles que se formam nos Estados Unidos e aqueles que decidem voltar. Meus amigos infelizmente (ou felizmente) a saudade é inevitável. As mais de cinco mil milhas que separam o Brasil dos Estados Unidos tornam impossível a volta para casa cada vez que sente-se falta dos pais, irmãos, namorados e amigos. É imprescindível que se tenha essa consciência antes de se despedir da família no saguão do aeroporto, caso contrário é melhor salvar as lágrimas. Algumas coisas amenizam e muito esse sofrimento. A primeira coisa a se fazer é se inserir o mais rápido possível no ambiente universitário. Combater o desconforto causado pela barreira que a língua representa e conhecer o maior número possível de pessoas. Para estudantes que praticam esporte esse processo é facilitado pela convivência natural com os companheiros de equipe. Além do mais o calendário escolar americano presenteia os estudantes internacionais com a oportunidade de passarem quatro meses por ano na sua terra natal. As aulas começam em Agosto e vão até o começo de Dezembro. Depois de um recesso de praticamente um mês as aulas retornam no início de Janeiro e prosseguem até o início de Maio, quando começam as férias de verão.

Um estudante universitário leva em média de quatro a cinco anos para se formar nos EUA. São muitas as possibilidades de um brasileiro se formando por aqui. Em primeiro lugar qualquer universidade americana equipara um estudante a competir pelos melhores empregos no Brasil. Não somente pela sua estrutura e qualidade de ensino, mas principalmente pela experiência que um estudante que passou anos longe de seu país e sua cultura, vivendo em constantes situações de adversidade, traz para o ambiente de trabalho. Muitos estudantes, porém optam por prolongar sua estadia nos Estados Unidos. Nesse caso há duas opções. A primeira é simplesmente continuar estudando. Muitos estudantes decidem começar a cursar o mestrado logo após a formatura. Todas universidades oferecem bolsas de estudo para mestrado em diversas áreas ("graduate assistantship"). Pode-se, por exemplo, conseguir uma bolsa para ser auxiliar de professor em sua respectiva classe. Porém os tipos de bolsa mais procurada por atletas estudantes são aquelas disponíveis nos programas esportivos. Praticamente toda equipe, masculina ou feminina, qualquer que seja o esporte, oferece pelo menos uma vaga (muitas vezes duas) para atletas recém-formados que estejam dispostos a trabalhar como auxiliares técnicos em troca de uma bolsa de mestrado. A segunda opção é ficar para trabalhar. Como mencionado anteriormente um estudante internacional não pode trabalhar nos EUA, a não ser que o trabalho se localize dentro do campus da universidade que o estudante freqüenta. Porém existe um programa especialmente destinado a estudantes estrangeiros que se encontram nessa situação e que desejam trabalhar em empregos formais fora do ambiente universitário. Esse programa é conhecido pela sigla OPT ("Optional Practical Training"). Através do OPT o estudante internacional recebe uma autorização de trabalho temporária com a validade de um ano. Nesse período o indivíduo tem seus direitos equiparados a qualquer cidadão americano no que diz respeito a oportunidade de trabalho. Depois desse período o indivíduo que deseje continuar trabalhando nos EUA pode requerer a autorização de trabalho permanente (H1B), onde apesar do processo ser muito mais complicado e caro as chances de sucesso são boas.

Ao final desse longo guia é natural que o leitor se pergunte: Mas será que vale a pena todo esse esforço??? Penso que esteja numa posição suspeita para responder a essa questão, já que sou prova viva de um indivíduo que passou por cada uma das situações descritas acima, mas mesmo assim não posso me abster de fazer tal testemunho: para grandes conquistas grandes desafios e sacrifícios? não só valeu como continua valendo? se tivesse que voltar sete anos atrás faria tudo novamente.

Até a próxima!!!

O texto publicado neste artigo é de responsabilidade do autor, e pode nao expressar a opiniao total ou parcial do Portal Sorocaba On-Line S/C Ltda sobre o assunto. Boa leitura!

Neto Canineu

é ex-jogador de futebol profissional com passagens por Corinthians, Fluminense e São Bento. Também é técnico de futebol universitário nos EUA, estando a frente dos programas de futebol da University of the Cumberlands, no estado do Kentucky. Formado em Administração de Empresas, Gerenciamento Esportivo e Educação Física nos EUA (Union College - Kentucky), Neto também faz parte do Programa de Desenvolvimento Olímpico norte-americano e ministra clínicas de futebol por todo o país. Atualmente cursando o MBA, Neto pretende se formar nos próximos dois anos.

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